Antônio e a Libras
Qual a importância de Antônio Campos de Abreu para a Libras?
A Libras, como qualquer língua natural, foi desenvolvida historicamente pela própria comunidade surda brasileira ao longo de gerações, com raízes anteriores ao nascimento de Antônio e com importante influência da Língua Francesa de Sinais. O protagonismo de Antônio está em outra etapa decisiva dessa história: na definição de sua nomenclatura, na documentação e divulgação da língua, na organização política da comunidade surda e na luta por seu reconhecimento legal no Brasil.
Foi no contexto da liderança da FENEIS que Antônio Campos de Abreu, Ana Regina de Souza Campello e Fernando de Miranda Valverde, importantes representantes do movimento surdo brasileiro, conduziram discussões que levaram à adoção do nome “Língua Brasileira de Sinais” e da sigla LIBRAS, sugerida especificamente por Antônio. O próprio Antônio deixou esse processo registrado no prefácio da obra Língua Brasileira de Sinais, uma das iniciativas pioneiras de documentação e divulgação sistemática da língua no país.
“Participei da história cultural da Língua de Sinais como ex-aluno do Instituto Nacional de Educação de Surdos, no Rio de Janeiro, durante minha fase escolar naquela instituição educacional. A participação da qual relato teve muitos colaboradores surdos, mas ainda não havia ninguém dedicado a qualquer material sobre o tema devido à proibição da Língua de Sinais que foi desencadeada durante cem anos de escravidão para os surdos brasileiros. Havia, entretanto, um livro que tinha sido escrito pelo Sr. Tobias Leite, em 1868, tradução de um livro francês sobre métodos para ensino de surdos e mudos. Outro Flausino José da Gama, em 1875.
A sigla LIBRAS foi assim instituída devido a discussões entre um pequeno grupo de surdos da qual eu fazia parte. Ana Regina de Souza Campello, Fernando de Miranda Valverde e eu conversamos muito a este respeito e chegamos à conclusão de que a melhor alternativa para definir a língua que os surdos brasileiros utilizam era a escolha do acréscimo com as palavras mencionadas que regem as nomenclaturas de Língua de Sinais. Então ficou Língua Brasileira de Sinais, a qual vem sendo divulgada há dez anos através de cursos e materiais diversos.”
O que essas lideranças fizeram foi participar da construção de uma nomenclatura nacional para identificá-la e consolidá-la publicamente como Língua Brasileira de Sinais, LIBRAS.
Sua atuação, entretanto, foi muito além da nomenclatura. Sob sua liderança e por meio daFENEIS, houve um importante esforço de documentação, organização, ensino e divulgação da Libras em um período no qual a língua ainda enfrentava profunda marginalização. A própria obra Língua Brasileira de Sinais, produzida nesse contexto, de autoria de Antônio, tornou-se uma das primeiras grandes iniciativas brasileiras de registro visual e divulgação sistemática de sinais, contribuindo para ampliar o acesso à língua por meio de materiais, cursos e ações de formação.
Esse aspecto é especialmente relevante porque se tratava de uma iniciativa protagonizada pelos próprios surdos. A atuação de Antônio e de outras lideranças da FENEIS representa justamente um movimento de transformação dessa lógica, no qual os próprios surdos passaram a documentar, organizar, ensinar, nomear e defender politicamente sua língua.
Há ainda uma terceira dimensão fundamental de sua relação com a Libras: a atuação política pela conquista de seu reconhecimento legal. Antônio foi uma liderança central da FENEIS durante o longo processo de mobilização da comunidade surda brasileira. Depois de anos de organização política, produção de materiais, cursos, articulação institucional e incidência junto ao poder público, a luta protagonizada pela FENEIS, juntamente com diversas outras lideranças e organizações da comunidade surda, chegou ao Congresso Nacional e culminou no reconhecimento legal da Língua Brasileira de Sinais no Brasil.
Assim, a relação de Antônio Campos de Abreu com a Libras pode ser compreendida em três grandes dimensões: liderou diretamente discussões que instituíram o nome “Língua Brasileira de Sinais” e a sigla LIBRAS; liderou, por meio da FENEIS, iniciativas pioneiras de documentação, sistematização, ensino e divulgação da língua; e teve papel de liderança no movimento político que lutou pela conquista de seu reconhecimento legal no país.
Essa história também revela uma questão maior sobre a própria construção da memória do movimento surdo brasileiro. Muito do protagonismo dessas lideranças permanece pouco conhecido fora da comunidade surda. Durante décadas, pessoas surdas dependeram de intérpretes, traduções e da mediação de ouvintes para que seus relatos alcançassem universidades, imprensa, instituições públicas e a sociedade em geral. As barreiras linguísticas contribuíram para que determinadas versões da história se tornassem muito mais conhecidas do que os relatos produzidos pelos próprios protagonistas surdos.
Por isso, recuperar documentos como os registros históricos da FENEIS preservados e digitalizados pelo próprio Antônio Campos de Abreu é fundamental. Eles demonstram que a história da Libras não é somente uma história sobre a comunidade surda. É uma história construída pela própria comunidade surda e por lideranças que participaram diretamente de sua documentação, de sua organização política, de sua difusão e da conquista de seu reconhecimento. Valorizar esses registros é recolocar os surdos no centro da história de sua própria língua.
A obra
Uma obra pioneira de documentação e divulgação da Libras

Língua Brasileira de Sinais
Autor: Antônio Campos de Abreu
Produzida em um período no qual a língua de sinais ainda enfrentava forte marginalização institucional, a obra reúne dezenas de páginas visuais com representações de sinais em Libras, organizadas como um vocabulário ilustrado.
Além de seu caráter pedagógico, o documento possui valor histórico porque contém o prefácio no qual Antônio registra, em primeira pessoa, as discussões sobre a nomenclatura “Língua Brasileira de Sinais” e a sigla LIBRAS.
- Capa
- Prefácio
- Alfabeto manual
- Página de vocabulário
- Outras páginas disponíveis