Biografia
Biografia de Antônio Campos de Abreu
Mais de cinco décadas ajudando a transformar a língua, a organização e os direitos da comunidade surda brasileira.
Capítulo 1 — Da roça em Abaeté ao INES
Antônio Campos de Abreu nasceu em 11 de maio de 1956, em Abaeté, no interior de Minas Gerais. Surdo desde o nascimento, cresceu em uma família que já conhecia a experiência da surdez: uma de suas irmãs também era surda, assim como um avô e um primo.
Sua infância foi marcada pela vida no interior. Seu pai e seu avô trabalhavam na roça, enquanto Antônio crescia entre campos, rios e animais. Mas havia uma barreira determinante. Em uma pequena cidade mineira nos anos 1960, uma criança surda praticamente não encontrava caminhos formais para estudar.
A comunicação por sinais naturais já fazia parte da família antes mesmo de Antônio conhecer a Libras. O caminho para a educação surgiu por meio de um primo. Aos 11 anos, em 1967, Antônio deixou Minas Gerais e partiu para o Rio de Janeiro para estudar no Instituto Nacional de Educação de Surdos, o INES.
“O mais importante foi aprender a língua de sinais […] no INES aprendi a ser independente […] passei a ter mais conhecimento e informações gerais.”


Capítulo 2 — O encontro com a língua e com uma comunidade
Antônio permaneceu no INES entre 1967 e 1973. Ali, além da escolarização, encontrou algo que mudaria definitivamente sua vida: uma comunidade de pessoas surdas com experiências semelhantes às suas e uma língua por meio da qual podia se comunicar plenamente.
Ao retornar a Belo Horizonte, viveu uma experiência muito diferente. Estudou no Colégio São Vicente como único aluno surdo em um ambiente de ouvintes e sem intérprete. A experiência foi marcada por fortes barreiras de comunicação.
Mais tarde, retomou os estudos por meio do ensino supletivo, dessa vez com intérprete, concluiu o Ensino Médio e, já adulto, ingressou na graduação em História. Sua monografia recebeu o título “Surdos: uma abordagem brasileira historiográfica e cultural”.


Capítulo 3 — Associações, esporte e organização política
Ao retornar a Belo Horizonte, Antônio passou a participar intensamente da Associação de Surdos de Minas Gerais, ASMG.
As associações de surdos funcionaram historicamente não apenas como espaços sociais, mas como importantes locais de encontro, circulação da língua, formação de lideranças e articulação política.
Em 1982, Antônio fundou a Federação Mineira Desportiva de Surdos, FMDS, que presidiu até 1985. Também participou da criação da Confederação Brasileira de Desporto dos Surdos, CBDS. O esporte ajudava a aproximar pessoas surdas de diferentes estados e, nesses encontros, questões como educação, língua, trabalho e cidadania também eram discutidas.
- Presidiu e integrou a direção da Associação de Surdos de Minas Gerais
- Fundou e presidiu a Federação Mineira Desportiva de Surdos
- Foi fundador e vice-presidente da Confederação Brasileira de Desporto dos Surdos
- Organizou os I e II Simpósios de Deficiência Auditiva, em 1986 e 1987
- Organizou os I Jogos Nacionais de Surdos, em 1986
- Participou da organização dos I e II Congressos Brasileiros de Surdos, em 1988 e 1990
- Apoiou a criação e a estruturação de mais de 30 associações e entidades de surdos em diferentes estados


Capítulo 4 — Quando os próprios surdos passaram a conduzir a organização nacional
A história da FENEIS é um dos grandes pontos de inflexão da trajetória de Antônio.
Antes dela existia a Federação Nacional de Educação e Integração dos Deficientes Auditivos, Feneida, organização conduzida principalmente por ouvintes e marcada por uma perspectiva fortemente oralista.
Em 1987, lideranças surdas decidiram disputar a direção da própria instituição. Ana Regina Campello candidatou-se à presidência, Antônio Campos de Abreu à vice-presidência e Fernando de Miranda Valverde à tesouraria. Associações de surdos de diferentes partes do país se mobilizaram para a votação.
A vitória representou uma mudança muito maior do que uma troca de dirigentes. A Feneida transformou-se na Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos, FENEIS. A própria mudança de “Deficientes Auditivos” para “Surdos” simbolizava uma alteração profunda de perspectiva: a comunidade passava a reivindicar representação a partir de sua língua, cultura e identidade.
Antônio tornou-se um dos pilares da nova organização. Presidiu a FENEIS entre 1993 e 2001, exerceu outras funções de direção durante anos e, em 2020, retornou à presidência. Em 2024, foi reeleito para mandato até 2028.
Em março de 1994, já presidente, Antônio instalou em Belo Horizonte o primeiro escritório regional da FENEIS fora do Rio de Janeiro, ampliando a presença territorial da Federação.


Capítulo 5 — Do movimento brasileiro ao movimento surdo mundial
Antônio também construiu uma trajetória internacional. O material biográfico registra experiências na Gallaudet University, em Washington, instituição internacionalmente reconhecida pela educação de pessoas surdas. Essas viagens o colocaram em contato com debates internacionais sobre identidade, direitos e organização política das comunidades surdas.
Entre 1995 e 1999, Antônio integrou o conselho diretivo da World Federation of the Deaf, WFD, levando a participação brasileira ao principal espaço internacional de representação política das pessoas surdas.
“Um fato que nunca me esqueço, em minha vida, foi a primeira viagem que fiz ao exterior. Fui aos Estados Unidos da América sozinho […] por fora, eu parecia estar firme, mas por dentro eu estava muito preocupado, pensativo e com muito medo.”





Capítulo 6 — Da organização política à conquista da Lei da Libras
O reconhecimento da Libras foi resultado de uma luta coletiva de décadas da comunidade surda brasileira. Antônio foi uma das lideranças centrais desse movimento.
Sob sua liderança, a FENEIS atuou na mobilização nacional que levou à Lei nº 10.436/2002, bem como nas articulações relacionadas ao Decreto nº 5.626/2005.
1999 — A Educação que Nós Surdos Queremos
Documento produzido durante o Pré-Congresso ao V Congresso Latino-Americano de Educação Bilíngue para Surdos, em Porto Alegre. Antônio integrou o grupo de lideranças surdas que participou de sua elaboração e proposição, reunindo reivindicações sobre língua, educação bilíngue, acessibilidade e protagonismo surdo.
2001 — Curso Nacional de Formação de Instrutores de Libras
Antes mesmo da Lei da Libras, uma equipe de lideranças da FENEIS participou, em articulação com o Ministério da Educação, da criação do curso. Antônio integrou a equipe e também atuou como docente.
2002 — Lei Federal nº 10.436
De 24 de abril de 2002, a lei reconheceu a Libras como meio legal de comunicação e expressão no Brasil.
2005 — Decreto nº 5.626
De 22 de dezembro de 2005, regulamentou a Lei da Libras e estabeleceu medidas relacionadas ao ensino, formação e acesso à Libras.



A luta que continuou
A história não termina em 2002. Antônio participou das articulações em torno da Lei nº 14.191/2021, que inseriu a educação bilíngue de surdos como modalidade na legislação educacional brasileira, definindo a Libras como primeira língua e o português escrito como segunda língua. Desde 2023, integra comissões nacionais relacionadas à educação bilíngue de surdos e à educação especial no Ministério da Educação.
A mobilização de rua acompanhou todo esse percurso. Em setembro de 2002, poucos meses depois da aprovação da Lei da Libras, cerca de 500 pessoas participaram em Belo Horizonte da passeata do Dia Municipal dos Surdos, que percorreu a Praça Sete, a prefeitura e o Palácio da Liberdade cobrando melhorias na educação de surdos e entregou uma carta de reivindicações ao governador do estado.

O trabalhador, o professor e o historiador
35 anos na indústria
Antônio trabalhou na Usiminas de 1977 a 2012, exercendo atividades administrativas e contábeis.
O professor
Depois da aposentadoria industrial, tornou-se professor de História e Geografia na Escola Estadual Francisco Sales, em Belo Horizonte, trabalhando com Ensino Fundamental e Educação de Jovens e Adultos, entre 2014 e 2021.
O historiador
Formou-se em História e dedicou parte importante de sua vida à preservação documental do movimento surdo.
Uma liderança conhecida pela comunidade surda, mas ainda pouco conhecida pelo Brasil
Apesar da extensão de sua trajetória e da presença em importantes processos históricos, Antônio Campos de Abreu permanece significativamente menos conhecido pelo grande público do que sua atuação poderia sugerir.
Parte dessa invisibilidade ajuda a revelar uma barreira enfrentada historicamente por lideranças surdas cuja principal forma de comunicação é a Libras. A maior parte dos mecanismos tradicionais de visibilidade pública, como entrevistas em rádio, televisão, discursos e debates, foi estruturada em torno da língua oral. Para uma pessoa surda não oralizada, a participação nesses espaços depende da presença de tradução e interpretação.
A própria história de Antônio evidencia esse paradoxo: uma liderança que dedicou décadas à defesa do reconhecimento da Libras viveu em uma sociedade que durante grande parte de sua trajetória ainda não oferecia à própria Libras os mesmos canais de circulação pública disponíveis ao português oral.